
Eu, com meus próprios pés de barro
Cruzava então os continentes assombrados
Inclemente ao clamor dos elementos
Colhia flores para os meus heróis avaros
Meus iguais que dormiam sob a chuva
E nas copas das árvores que eu vergava
Benditos frutos entre sementes vegetando
Ásperos como a voz que os embalava.
Eu, como meus próprios pés de barro
Devastava as antigas tribos insulares
Devorando raízes e mitos sagrados
Congelando e tatuando a alma dos bravos
E dos sábios em moedas de ouro roubadas
Para forjar um país de amotinados.
Esse sonho era minha febre, e eu soprava
Como um deus exasperado sobre os vivos
O sopro que a mim mesmo eu recusava.
Eu, com meus próprios pés de barro
Regia esse escarcéu que me exilava
Mas o que era eu nesse tempo inventado?
O que impedia a queda tão esperada?
Eu queria acordar no meio da tarde
Ouvindo sons de risos ou de flautas
Que aplacassem a lenda onde eu reinava
Que revogasse a pena desses homens
plantas e bichos aos meus pés
Mas o barro do poema me enterrava.
FERNANDO ABREU